Vou-te contar uma historia numa disposição sentimental, John Coltraine.
Começa há muito tempo. Ele era um rapaz perdido num espaço. Alguns mundos tinham desabado sobre ele, e ele já não sabia assentar os pés em nenhum deles, posto que eram indefiníveis.
Tudo era delicadamente tangível como uma flor. Taciturna como havia sido a dor, era toda a sua razão para perseguir a incerteza.
Um viajante num novo jardim. A sua vida, apesar de nunca o desejar tanto como o sofrimento que isso provoca, era viver só nessa apreciação. Sem maior esperança que dominar a arte própria de estar consigo mesmo.
Mas um dia viu uma flor, como vira tantas. Todo o seu brilho, como muitas, o iluminou. Tinha-se habituado a apreciá-las com olhos de jardineiro, e nele se reviu a vontade de a ver resplandecer no meio de todas as outras. "A flor não se explica, vive-se", pensou. Na grandeza infinita de um átomo, o pouco ou demasiado sentido que nele provocou era o bastante para não caber em mil peitos rendidos de viver.
"My funny valentine...". O seu coração, que era oval, esboçou e ainda esboça a forma de um sorriso que em mais nenhum peito poderia caber além do de Chet Baker. Ele sabia que só o tempo era dono do tempo, e este era seu dono.
Pensou, "Hei-de regar esta flor com estas lágrimas, e me plantarei a seguir com ela para que ela cresça comigo neste universo turbilhão". E, apesar de toda a extensão e complexidade do pensamento, abraçou a simplicidade do calor que aquela flor lhe provocou, sendo fria a sua, extraordinariamente rarefeita, seiva.
E então, numa dança até ao fim do amor se deixou levar ao som de Madeleine Peyroux. Correu big bangs, buracos negros, time and space continuums, imprecisões em regras da física, precisões no aleatório. Nesse infinito passou pelo tempo. E ao ultrapassá-lo não viu nenhum passado.
Tudo ali se desvendou.
A flor continuaria lá, para sempre. E o rapaz ainda hoje viaja e se desvanece na escuridão dos Dire Straits, pois tudo continua preso e solto na sua imensa cabeça de alfinete.
sábado, 16 de Maio de 2009
sábado, 1 de Março de 2008
Onde foste estar?
No meio de tanta pisada linha e fio de granada transparente. De situação oculta que consome miúdo até matar, foste tu onde calhar?
Fumo, não raro, uma ou outra nuvem mais negra. Fumo muito do meu pensamento para o espalhar e voar com ele para mundos paralelos. Trago de lá, no meio de tantas, algumas destas amargas palavras. Terei estes vícios com credo em te mostrar saída mas não quero que vás... O digo porque me arranharia para te sentir à flor, que luz vermelha, da minha pele e pulmão.
Mas tu não.
Rasgas-te em feridas tão profundas que te chegam ao coração. Que, por sorte, não te matam imediatamente e por isso vais vivendo julgando que, sem mazelas, tiras proveito da contradição. E assim vives há tanta gente... Viverás assim?
Mas não te preocupes com o tempo.
Não te preocupes com o vento da tempestade que por maldade te puxará para onde julgas que moras, desfazer-te-á em vida moída pelos olhos daqueles que nunca saberão o que te irá na memória que te destrói o coração...
Afinal, tu és tu. E serás sempre o que queres ser.
Fumo, não raro, uma ou outra nuvem mais negra. Fumo muito do meu pensamento para o espalhar e voar com ele para mundos paralelos. Trago de lá, no meio de tantas, algumas destas amargas palavras. Terei estes vícios com credo em te mostrar saída mas não quero que vás... O digo porque me arranharia para te sentir à flor, que luz vermelha, da minha pele e pulmão.
Mas tu não.
Rasgas-te em feridas tão profundas que te chegam ao coração. Que, por sorte, não te matam imediatamente e por isso vais vivendo julgando que, sem mazelas, tiras proveito da contradição. E assim vives há tanta gente... Viverás assim?
Mas não te preocupes com o tempo.
Não te preocupes com o vento da tempestade que por maldade te puxará para onde julgas que moras, desfazer-te-á em vida moída pelos olhos daqueles que nunca saberão o que te irá na memória que te destrói o coração...
Afinal, tu és tu. E serás sempre o que queres ser.
quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008
Pirata Tristeza
Não falo muito de mim,
Deste-me tu lábios assim.
Ocultas bem o teu tesouro
Quando descubro o teu cetim.
A vida perdoa alguns erros.
Curou-me sempre a apatia.
Matou alguns medos, curou a ressaca,
Mas deixou sempre a canto esta fobia
De te contar, aberto, um dia.
Estava escuro, entravas-me em figura.
Frescura alegre de sanidade, por demais real.
Em terra de carnaval, tua máscara verdade.
Sorriste largo com os olhos,
Vontade de um completo, nada de vaidade.
Decerto estarás longe agora,
E de um fogo que lavrava essa gente a monte,
Finas cinzas cobrem a mente de quem chora.
De quem chora a natureza,
A natureza de quem chora.
Da certeza que nunca tive, o meu mote.
Gesto que jamais vive, dita toda a sorte.
Agora tu lavras longe de mim, a norte.
E eu a sul, exorciso o nunca te viver.
Dá-me esse prazer...
Dá-me esse prazer, Menina Alvor.
Aquece por calor, que frio é desvanecer.
Deram-te o nome de uma flor,
Esse nome de que nunca farei dor,
Se te fizer, um dia, meu amor.
Deste-me tu lábios assim.
Ocultas bem o teu tesouro
Quando descubro o teu cetim.
A vida perdoa alguns erros.
Curou-me sempre a apatia.
Matou alguns medos, curou a ressaca,
Mas deixou sempre a canto esta fobia
De te contar, aberto, um dia.
Estava escuro, entravas-me em figura.
Frescura alegre de sanidade, por demais real.
Em terra de carnaval, tua máscara verdade.
Sorriste largo com os olhos,
Vontade de um completo, nada de vaidade.
Decerto estarás longe agora,
E de um fogo que lavrava essa gente a monte,
Finas cinzas cobrem a mente de quem chora.
De quem chora a natureza,
A natureza de quem chora.
Da certeza que nunca tive, o meu mote.
Gesto que jamais vive, dita toda a sorte.
Agora tu lavras longe de mim, a norte.
E eu a sul, exorciso o nunca te viver.
Dá-me esse prazer...
Dá-me esse prazer, Menina Alvor.
Aquece por calor, que frio é desvanecer.
Deram-te o nome de uma flor,
Esse nome de que nunca farei dor,
Se te fizer, um dia, meu amor.
sábado, 26 de Janeiro de 2008
Querida partida, desculpa a bruta saída
Quero ver os peixes a bailar, a tropeçar no talher, voar pró espaço. Eu sou o Capitão Gravidade. Comando, quero e faço, e vou pra fora deste planeta, dar c'os cornos num cometa.
Adeus cidade. Queimas com os teus macacos, aflitos pela ordem, pelos acidentes aos cucos de cacos provocados por camisas desabotoadas de eunucos. A passear, a coxear, a morrer, a foder desalmadamente e com dor. Porque aquela rapariga levou-me o amor. E a sanidade. E eu estou cansado deste planeta...
Há poucos marcianos. Tenho 23 anos, 23. Tenho 1000 anos... 1000. Mas que merda é esta? Isto é merda demais para um intestino. Isto é obra do destino.
Fui saltar no comboio de outra pessoa e não fiquei curado. Fiquei completamente marado dos cornos, com contornos telepatas, há quem afirme de gatas.
E saltam ainda os bacalhaus. Partem as barbatanas, fodem-se canzanas, enfiam-se ratazanas (pelos esgotos) adentro.
Mas que grandioso momento! Que monumental excremento!
Isto é para os inférteis. Isto é um filho.
Tudo isto é triste. Tu já me mentiste...
Isto é porque me apetece... Isto é uma prece.
Que a vida comece.
Adeus cidade. Queimas com os teus macacos, aflitos pela ordem, pelos acidentes aos cucos de cacos provocados por camisas desabotoadas de eunucos. A passear, a coxear, a morrer, a foder desalmadamente e com dor. Porque aquela rapariga levou-me o amor. E a sanidade. E eu estou cansado deste planeta...
Há poucos marcianos. Tenho 23 anos, 23. Tenho 1000 anos... 1000. Mas que merda é esta? Isto é merda demais para um intestino. Isto é obra do destino.
Fui saltar no comboio de outra pessoa e não fiquei curado. Fiquei completamente marado dos cornos, com contornos telepatas, há quem afirme de gatas.
E saltam ainda os bacalhaus. Partem as barbatanas, fodem-se canzanas, enfiam-se ratazanas (pelos esgotos) adentro.
Mas que grandioso momento! Que monumental excremento!
Isto é para os inférteis. Isto é um filho.
Tudo isto é triste. Tu já me mentiste...
Isto é porque me apetece... Isto é uma prece.
Que a vida comece.
sábado, 19 de Janeiro de 2008
Ode ao Amar
O tempo uma vez jurou-me o que foi puro. Sublime. Ele prometeu-se em sua honra, mesmo no meio da sua razão. De vez em quando neva em abril, dizia... Foi-me convencendo que o vazio tenderia na sua essência para o completo, e foi em tempos o meu mais consagrado mentor. Devo-me ao tempo e assim permaneci até à vontade.
Ela chegou imponente. Com os seus contornos femininos fez-me complicar tormentos e aguar fervuras apáticas em contradições, paixões. Prometeu-me que, por si só, far-se-ia real, seria leal tanto quanto a sua proporção de certeza. Ensinou-me probabilidades e que as soluções pressupõem problemas por resolver. A vontade deu-me garras e eu ganhei a tracção disto que faço. A vontade ensinou-me a fazer.
Hoje bateu-me à porta a memória. Trazia junto a nostalgia, e bebemos café. No fumo brando do meu cigarro desenharam a minha origem, a minha causa. Desenharam a minha antiga casa, a minha pronúncia. Foi a minha companhia de vanguarda e, de me conhecer, demoliu-me por completo todos os limites e os infinitos.
Mas toda a gente se foi embora agora.
Como me haveria tornado... Como, de tanta abertura, altura, desventura, construira o mais pesado dos aluquetes. Como me venho esquecendo de contruir a porta deste castelo de reino tão imponente quanto a vida. Quanto eu...
De tudo o que sinto, o que não posso sentir, o que nunca sentirei outra vez é o mais amedrontado dilema no qual algum dia me impliquei.
De tudo o que construí para mostrar ao mundo,
O que sou de mais profundo,
O que alguma vez fui desumanamente abraçando,
Entrando e saindo de mim, doce, amargo.
De todo o artificial que algum dia jurei tão parecido,
Hoje sou um forte, tão contido quanto toda a minha vontade de não o ser.
Fui, tão concisamente, tudo o que não desejava ser.
Hoje tenho todo o respeito por ti... Espero algum dia, do que aprendi e continuo, rever-te.
À minha pura razão do viver.
Ela chegou imponente. Com os seus contornos femininos fez-me complicar tormentos e aguar fervuras apáticas em contradições, paixões. Prometeu-me que, por si só, far-se-ia real, seria leal tanto quanto a sua proporção de certeza. Ensinou-me probabilidades e que as soluções pressupõem problemas por resolver. A vontade deu-me garras e eu ganhei a tracção disto que faço. A vontade ensinou-me a fazer.
Hoje bateu-me à porta a memória. Trazia junto a nostalgia, e bebemos café. No fumo brando do meu cigarro desenharam a minha origem, a minha causa. Desenharam a minha antiga casa, a minha pronúncia. Foi a minha companhia de vanguarda e, de me conhecer, demoliu-me por completo todos os limites e os infinitos.
Mas toda a gente se foi embora agora.
Como me haveria tornado... Como, de tanta abertura, altura, desventura, construira o mais pesado dos aluquetes. Como me venho esquecendo de contruir a porta deste castelo de reino tão imponente quanto a vida. Quanto eu...
De tudo o que sinto, o que não posso sentir, o que nunca sentirei outra vez é o mais amedrontado dilema no qual algum dia me impliquei.
De tudo o que construí para mostrar ao mundo,
O que sou de mais profundo,
O que alguma vez fui desumanamente abraçando,
Entrando e saindo de mim, doce, amargo.
De todo o artificial que algum dia jurei tão parecido,
Hoje sou um forte, tão contido quanto toda a minha vontade de não o ser.
Fui, tão concisamente, tudo o que não desejava ser.
Hoje tenho todo o respeito por ti... Espero algum dia, do que aprendi e continuo, rever-te.
À minha pura razão do viver.
quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008
Gastronomia
Quando uma vez entrei no bar e te vi perdida de ti, entusiasmaste-me o quanto podias. Piscaste-me o olho à alma, ocupaste-me raciocínios inteiros, vulcões de janelas abertas. É fácil saciar poetas, julgavas tu.
Comias um bocado de ti enquanto vomitavas o mundo.
Não era o mundo, nem eras tu e eu sabia-o. Eu provava-o, injectava-mo. Sentia-te crescer de base pura inquestionável.
Mas depois de me ter construído mesmo nesse precipício para tirar proveito da vista, dessa brisa indecisa, tu julgaste-te descabida de ti. E como tal, nalgum bicho te havias de transformar. E transformaste... Tal qual no bicho que escolheste nalgum jogo de perguntas meninas, seguindo a mais precisa lei das vontades de uma gente avulsa.
Numa rotina que te vi, farto de ter visto noutras meninas outras tais rotinas...
E hoje quem te vomita sou eu. Enquanto como o mundo.
Comias um bocado de ti enquanto vomitavas o mundo.
Não era o mundo, nem eras tu e eu sabia-o. Eu provava-o, injectava-mo. Sentia-te crescer de base pura inquestionável.
Mas depois de me ter construído mesmo nesse precipício para tirar proveito da vista, dessa brisa indecisa, tu julgaste-te descabida de ti. E como tal, nalgum bicho te havias de transformar. E transformaste... Tal qual no bicho que escolheste nalgum jogo de perguntas meninas, seguindo a mais precisa lei das vontades de uma gente avulsa.
Numa rotina que te vi, farto de ter visto noutras meninas outras tais rotinas...
E hoje quem te vomita sou eu. Enquanto como o mundo.
quarta-feira, 7 de Novembro de 2007
Um tempo longe de mim
Ponhamos em opção os teus dilemas. Sugiramos que te separam dois dedos de mim, da minha morada, de tudo temeres que a mim te largues inteira. Ainda assim continuarias a beijar-me? Se tu me visses inteiramente dado ao temor do precipício de vida que me impões, ainda assim apertarias com vigor olímpico o punho da minha força para agarrar-te companhia? Porque eu desfaço-me constantemente em vontades incoerentes. Isto das palavras que me rege é uma insane contenção da total desgovernação de ideias, desejos, cheiros e apatia de ti. Gostava eu de me domar... De te prometer, fazer ficar, lançar-te ao ar em liberdade, buscar-te ao chão da desilusão, fugir, fluir em horror de me mentir, destruir...
Estarei sempre em ti, sabias? Estive quando te vi. Chorei pedaços de alma quando me dei a outras. Eu perco alma por ti todos os dias...
A minha alma está partida, e tu és o maior pedaço. Ainda sinto as tuas arestas perfurarem os meus limites assim que me mexo. Vais tatuando o meu interior com o teu respirar. És a tatuagem menos dolorosa de fazer...
Gostava de te falar do meu mundo... Assim nesta lingua. Gostava que me viesses só olhar, que chorasses uma lágrima para eu navegar e me prender.
Eu sou este vazio, sabes... De não me conhecer. Nada mais que, a meu ver, o que pode agora acontecer, e ainda assim sem garantia. Sou uma simpatia, serei? Um tipo de enguia que, ao escapar de si se extravia para dentro dos outros e se instala como que se em si estivesse posta.
Quando eu ajustar a força da minha corda, sem esforço tu me farás voar. E viver. E morrer.
Estarei sempre em ti, sabias? Estive quando te vi. Chorei pedaços de alma quando me dei a outras. Eu perco alma por ti todos os dias...
A minha alma está partida, e tu és o maior pedaço. Ainda sinto as tuas arestas perfurarem os meus limites assim que me mexo. Vais tatuando o meu interior com o teu respirar. És a tatuagem menos dolorosa de fazer...
Gostava de te falar do meu mundo... Assim nesta lingua. Gostava que me viesses só olhar, que chorasses uma lágrima para eu navegar e me prender.
Eu sou este vazio, sabes... De não me conhecer. Nada mais que, a meu ver, o que pode agora acontecer, e ainda assim sem garantia. Sou uma simpatia, serei? Um tipo de enguia que, ao escapar de si se extravia para dentro dos outros e se instala como que se em si estivesse posta.
Quando eu ajustar a força da minha corda, sem esforço tu me farás voar. E viver. E morrer.
segunda-feira, 22 de Outubro de 2007
Esqueleto de nós
Sabes o que nunca te fiz notar?
Que feriste ao olhar
Almejaste, sorriste, mas nunca tocaste
Tão pouco uma corda Um único traste
Vulgarmente, contrastaste tudo do teu apreciar
Com um morno arrastar cortante
Num mudo ronronar displicente, distante
Tenho a dizer-te, sem favor
Que esse insípido adiar
Engolir-te-á, todinho, o calor
Como se o tempo aspirasse a cada falta
A tua ribalta do viver
Qual buraco negro de prazer
Deambulante vontade de nada acontecer
E sabes que mais, minha infértil semente?
Eu... igualmente
Que feriste ao olhar
Almejaste, sorriste, mas nunca tocaste
Tão pouco uma corda Um único traste
Vulgarmente, contrastaste tudo do teu apreciar
Com um morno arrastar cortante
Num mudo ronronar displicente, distante
Tenho a dizer-te, sem favor
Que esse insípido adiar
Engolir-te-á, todinho, o calor
Como se o tempo aspirasse a cada falta
A tua ribalta do viver
Qual buraco negro de prazer
Deambulante vontade de nada acontecer
E sabes que mais, minha infértil semente?
Eu... igualmente
domingo, 14 de Outubro de 2007
Certamente
Alheia-te, confusão, de qualquer premonição, ilusão de mão esticada, estucada de compasso, pincel e união. Repara que, degustada a falsa percepção, propencias ao vulcão de toda uma descalça tentação.
Cozinhas-te diversa, especiaria perversa e inocente envolta em folhado disfarçado de mentira inconsequente. Algo que jamais te apoquente se fará perdição de muita gente.
Ao contrário, certa mente...
Cozinhas-te diversa, especiaria perversa e inocente envolta em folhado disfarçado de mentira inconsequente. Algo que jamais te apoquente se fará perdição de muita gente.
Ao contrário, certa mente...
domingo, 30 de Setembro de 2007
Silêncio
Hoje deixei de compreender este bater. Este barulho constante, aflito, interferente grito no vácuo do que interpreto objecto em saco universal de vida.
Hoje vi que me segurava por muito pouco, contava ao mouco... Vi que disparava cartuchos vazios, murchos, arrepios frios. Que corria perigos falsos de travões sem calços numa perfeita, completa e desinteressante falta de velocidade. Errante entre brandos prantos, nada que fazer, ninguém para amar, telas brancas sem tinta para pintar. Berrar caíu-me como a falta de som que a seguir se segue, e que ainda assim prossegue como padrão patrono - é o silêncio hoje o meu dono.
Hoje vi que me segurava por muito pouco, contava ao mouco... Vi que disparava cartuchos vazios, murchos, arrepios frios. Que corria perigos falsos de travões sem calços numa perfeita, completa e desinteressante falta de velocidade. Errante entre brandos prantos, nada que fazer, ninguém para amar, telas brancas sem tinta para pintar. Berrar caíu-me como a falta de som que a seguir se segue, e que ainda assim prossegue como padrão patrono - é o silêncio hoje o meu dono.
segunda-feira, 16 de Julho de 2007
Esse fácil respirar
Vi o ar entrar na boca por beijar, mudo suspirar espectante, errante pensamento voado no vento.
-O que tens?
Manténs a contradição de um olhar de perdição. Sentes como que com um verbo, servo de uma lógica comum, de uma pródiga lista de palavras em jejum de vida, de acção destemida, descontida, perdida, ganha de se sentir até à entranha. Actuar desperdiçado de letras que compenetras em lume frio, explosivo sem pavio, mendigo atrofio...
-Nada...
Complicada a percepção de que respirar é morrer, matar, mudar... Levar um bocado de todos, perder todos os bocados de mar. Cheirar, comer, voar, compreender que mal vemos mas que nada tememos amar. Descozer, rasgar, tudo de fora!
-E viver, podemos agora?
-O quê?
Deixo-te ficar. Contido enigma de medos, fruto de segredos de todos que deixam apodrecer o fazer, a troca de menos sofrer. A troca de si demais.
-Até já.
-Onde vais?
-O que tens?
Manténs a contradição de um olhar de perdição. Sentes como que com um verbo, servo de uma lógica comum, de uma pródiga lista de palavras em jejum de vida, de acção destemida, descontida, perdida, ganha de se sentir até à entranha. Actuar desperdiçado de letras que compenetras em lume frio, explosivo sem pavio, mendigo atrofio...
-Nada...
Complicada a percepção de que respirar é morrer, matar, mudar... Levar um bocado de todos, perder todos os bocados de mar. Cheirar, comer, voar, compreender que mal vemos mas que nada tememos amar. Descozer, rasgar, tudo de fora!
-E viver, podemos agora?
-O quê?
Deixo-te ficar. Contido enigma de medos, fruto de segredos de todos que deixam apodrecer o fazer, a troca de menos sofrer. A troca de si demais.
-Até já.
-Onde vais?
sexta-feira, 15 de Junho de 2007
Tabaco
Avivo pedaços de rubi. Mil me concentro em ponto vermelho de ti. Expludo ao milhão nesse complot de falsa contenção, perco ganho, cravo lanho de bisturi. Corro gume em riste sobre tudo o que existe, leio-te o sim, contemplo pulsante carmim. Estalo de dedo, ocluso medo, destrói-se fácil segredo.
Percorro-te em oitos, trajectos escorridos, coitos afoitos de secretos efeitos contidos nesse odor exponencial de completa luxúria canibal.
Outro cigarro. Outro maço. Disperso-me em baço fumo pela tua boca adentro, alimento-te de vício em propício desarme. Penetro-te na carne pelas veias, e a meias de loucura e dor emerge-te o prazer de me veres no teu suor, na tua falta de pudor, no teu ponto de implosões sucessivamente sublimes.
Sou tudo quando não reprimes.
Tabaco.
Percorro-te em oitos, trajectos escorridos, coitos afoitos de secretos efeitos contidos nesse odor exponencial de completa luxúria canibal.
Outro cigarro. Outro maço. Disperso-me em baço fumo pela tua boca adentro, alimento-te de vício em propício desarme. Penetro-te na carne pelas veias, e a meias de loucura e dor emerge-te o prazer de me veres no teu suor, na tua falta de pudor, no teu ponto de implosões sucessivamente sublimes.
Sou tudo quando não reprimes.
Tabaco.
domingo, 20 de Maio de 2007
Queda bairrista
Procurei-te na noite, ontem. Estavas em todo o lado escrita, aflita por quem te lesse, te apetecesse como um gelado fado proibido de um porto sentido.
Fui buscar-te a cada parede, meti-te numa folha, matei-te de sede e depois tirei a rolha. Vi-te palavras, pardas passas amarrotadas num pedaço de seda, vendidas à postura de uma menos que pura perfeição.
Agora ando pelo chão a procurar-te nas fendas... Choro a ouvir lendas. Despedaço-me, moro em tendas, cheiro o rio que imploro que seque por justiça. Desvio olhares dessa insignificante cobiça. Pobre impedância da coluna cujo fio de cobre arrancado, jogado ao acaso no meio de um bairro sobrepopulado, tu enferrujaste.
Fui buscar-te a cada parede, meti-te numa folha, matei-te de sede e depois tirei a rolha. Vi-te palavras, pardas passas amarrotadas num pedaço de seda, vendidas à postura de uma menos que pura perfeição.
Agora ando pelo chão a procurar-te nas fendas... Choro a ouvir lendas. Despedaço-me, moro em tendas, cheiro o rio que imploro que seque por justiça. Desvio olhares dessa insignificante cobiça. Pobre impedância da coluna cujo fio de cobre arrancado, jogado ao acaso no meio de um bairro sobrepopulado, tu enferrujaste.
quarta-feira, 25 de Abril de 2007
Volte-face
No outro dia convenceste-me que havia outro de ti. Quase morri. Morro se não te sinto, minto. Pinto-me no teu forro de setim para quando te vires ao espelho. Morro de velho assim.
Há-de ser um mundo cão. Roubas-me a razão, enfias-me no chão até à China, preso a esses olhos de ladrão, de menina.
Enfurecer-te de euforia, que bem me sabia... Quantas vezes te comia, inteira, a empatia. Nem as conto, acrescento um ponto de interrogação no quente meio de ti. Ali invejava o verde da tua dieta se só dele a tua fome. Detesto alface.
Volte-face, vice-versa, vira-volta, trás-pra-frente.
Tiro as metas da gaveia, vou a Lisbão de avioa, comer gelão de sereia.
Há-de ser um mundo cão. Roubas-me a razão, enfias-me no chão até à China, preso a esses olhos de ladrão, de menina.
Enfurecer-te de euforia, que bem me sabia... Quantas vezes te comia, inteira, a empatia. Nem as conto, acrescento um ponto de interrogação no quente meio de ti. Ali invejava o verde da tua dieta se só dele a tua fome. Detesto alface.
Volte-face, vice-versa, vira-volta, trás-pra-frente.
Tiro as metas da gaveia, vou a Lisbão de avioa, comer gelão de sereia.
sexta-feira, 20 de Abril de 2007
Desleixo
Pinto feno. Mundo de fundo ameno. Jamais me meto nesse conserto, prometo... Solto o cabelo indiferente, fecho-me em contente. Hoje estou vazio, quente de frio.
Hoje não há rio, nem poeta, nem navio.
Mas mais que tinta, diluente. Mais que tu, muita gente.
No fim de ti há sol, porque mais que o peixe, o anzol.
Desleixo.
Hoje não há rio, nem poeta, nem navio.
Mas mais que tinta, diluente. Mais que tu, muita gente.
No fim de ti há sol, porque mais que o peixe, o anzol.
Desleixo.
terça-feira, 17 de Abril de 2007
Fica
Foge! Salta desse jardim que vem o ancinho levar-te p'ró vaso. Ele não sabe onde brilhas, onde estrilhas, te abraças, te misturas nas passas que pintam no ar um cinzento respirar. Parte a raíz que isso cresce, leva o caule de corpete, redondas folhas de aluquete.
Ai esse estilete... Magnânime obtusa fome de te provar como um milhão de colibris em festim, febris por jasmim... Até ao fundo fim. Até te perderes no tempo em contemplo vivo vermelho das tuas pétalas e jorrares a água que da mágoa foste bebendo.
Ele não te compreende, nem de longe o tenta. Foge...
Ai esse estilete... Magnânime obtusa fome de te provar como um milhão de colibris em festim, febris por jasmim... Até ao fundo fim. Até te perderes no tempo em contemplo vivo vermelho das tuas pétalas e jorrares a água que da mágoa foste bebendo.
Ele não te compreende, nem de longe o tenta. Foge...
segunda-feira, 16 de Abril de 2007
Espera pelo vento
Anda cá ver. Só ver. Não corrijas, não te aflijas. Vem e sente. Sente e mente ao sentimento. Sem templário nem convento, contemplação conveniente dos doentes.
Está, só. Ganha pó comigo a olhar p'ra isto nada. Atira a tua espada e pega na caneta. Não precisas d'ampulheta, aqui não há areia. Põe o pé, molha a meia. Respira da água, pequena sereia. Essa magia não engana, não é preciso ver-te a escama nem levar-te para a cama.
Espera pelo vento. Todo o vento é a favor. Todo o vento é amor.
Está, só. Ganha pó comigo a olhar p'ra isto nada. Atira a tua espada e pega na caneta. Não precisas d'ampulheta, aqui não há areia. Põe o pé, molha a meia. Respira da água, pequena sereia. Essa magia não engana, não é preciso ver-te a escama nem levar-te para a cama.
Espera pelo vento. Todo o vento é a favor. Todo o vento é amor.
sexta-feira, 9 de Março de 2007
Acabar contigo
A tua boca foleira, gosto. De estar à tua beira quando mordes a caneta e te dar duas de letra (se calhar menos), vês-me longe, vês-me monge. Vês falange proximal, domínio a solo desse anel de papel, olha-me ele! Como eu te lia... Vês tudo, surdo-mudo. Mouco? Pouco. Quase nada. Palhaçada. E já está! Já tos vi, não escapas! Quase te li aqui...
Quase te via aí por dentro, nesse timbre pardacento, nesse teu jeito fechado de um fado menos que acabado por cantar. Ai esse luar, fico maluco! Fico cheio como um cuco! Fico a meio, duro e bruto. Perdido por um chuto dessa branca, branquinha aura de menina descontente, desconcertante!
Vais ser o meu fim... De semana, antes fosses! Mas dá cana... Não dá. És assim, mas não és para mim... Tal e qual melhoral e ilvico antigripal - acaba com qualquer mal. Mas não dá, malmequer... Antes desse. Nem se me desses o tal tabefe, ou dissesses que sou do leste e me chamasses uma peste ou qualquer coisa humilhante para gente de antigamente.
Como era assim que eu queria acabar... Contigo.
Quase te via aí por dentro, nesse timbre pardacento, nesse teu jeito fechado de um fado menos que acabado por cantar. Ai esse luar, fico maluco! Fico cheio como um cuco! Fico a meio, duro e bruto. Perdido por um chuto dessa branca, branquinha aura de menina descontente, desconcertante!
Vais ser o meu fim... De semana, antes fosses! Mas dá cana... Não dá. És assim, mas não és para mim... Tal e qual melhoral e ilvico antigripal - acaba com qualquer mal. Mas não dá, malmequer... Antes desse. Nem se me desses o tal tabefe, ou dissesses que sou do leste e me chamasses uma peste ou qualquer coisa humilhante para gente de antigamente.
Como era assim que eu queria acabar... Contigo.
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